Somente no RS, 10 mulheres já foram vítimas desse tipo de crime em 2026. Enfrentamento depende do poder público, mas também de mudanças comportamentais dos homens
O ano de 2026 começou mal para muitas brasileiras vítimas de feminicídio e suas famílias. Ainda não há dados consolidados de todo o país, mas o noticiário de janeiro, que ainda nem terminou, já mostrou a gravidade da situação. Um dos destaques mais negativos é o Rio Grande do Sul, que registrou ao menos dez casos.
O número — que já supera janeiro do ano passado, quando houve nove ocorrências — corresponde a cerca de um feminicídio a cada dois dias no estado.
A quantidade de tentativas também foi alta. De acordo com a Polícia Civil do estado, nos primeiros 26 dias do ano, houve ao menos 30 situações em que mulheres quase foram mortas nesse tipo de crime, o que significa mais de uma por dia — em 2025, foram sete. Ao todo, no ano passado, houve 80 feminicídios e 258 tentativas no RS.
O noticiário também apontou ao menos nove casos em Pernambuco, além de outras ocorrências em estados como Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais e Piauí neste começo de ano.
Apesar das diferenças entre estados, dados colhidos ao longo dos anos mostram a gravidade da situação no Brasil. O ano de 2025 teve o maior número de feminicídios da série histórica, 1.470 casos, média de quatro vidas de brasileiras arrancadas por dia, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
O roteiro desses assassinatos é quase sempre o mesmo: mulheres são mortas por parceiros ou ex, em casa, muitas vezes na frente dos filhos e de forma brutal.
O caso mais recente do RS ocorreu na noite desta segunda-feira (26), em Santa Cruz do Sul e seguiu esse mesmo padrão. Paula Gomes Gonhi, de 44 anos, foi morta a facadas em sua própria casa. A suspeita é de que o crime tenha sido cometido pelo seu companheiro. Quem acionou a Brigada Militar foi o filho da vítima, de 17 anos.
A deputada estadual Bruna Rodrigues (PCdoB), procuradora da Mulher da Assembleia Legislativa gaúcha, cobrou medidas do governador Eduardo Leite (PSD). “Como o governo do RS ainda não declarou estado de emergência diante dessa realidade? Como o governador continua em silêncio?”, questionou.
Bruna salientou, pelas redes sociais, que a perda dessas dez mulheres significa “dez famílias destruídas. Inúmeros filhos, amigas e amigos. Inúmeras vidas atravessadas pela violência. Não são só números. São mulheres sendo assassinadas quase todos os dias. O Rio Grande do Sul se tornou um estado onde nenhuma mulher se sente segura”.
A proteção à mulher é um dos muitos pontos fracos da gestão Leite. Somente no ano passado, após forte escalada no número de feminicídios e de muita pressão por parte dos movimentos sociais e da oposição — com Bruna à frente —, a gestão estadual reativou a Secretaria da Mulher, com um orçamento inicial de R$ 3,4 milhões anuais. A estrutura havia sido extinta em 2015, na gestão de José Ivo Sartori (MDB).
Questão desafiadora
Há estados com melhor e pior desempenho no combate a esse tipo de crime, mas o problema atinge todo o território brasileiro. A violência contra a mulher em geral e os feminicídios em particular compõem um duro e desafiador quadro a ser superado, cujo enfrentamento vai muito além de ações no campo da segurança pública.
Seu combate precisa envolver o poder público em todas as suas esferas e níveis, bem como toda a sociedade — especialmente os homens, que em geral agem de maneira omissa com relação ao tema.
Ao mesmo tempo, a luta pela vida das mulheres depende de medidas complexas e variadas, que vão desde a educação ainda na infância (em casa e nas escolas), passando pela proteção e acolhimento às vítimas de violência e pela responsabilização e punição aos culpados até mudanças comportamentais urgentes que demandam, inclusive, a regulação das redes sociais a fim de desestimular a onda de machismo e misoginia — encabeçada especialmente pela extrema direita — que invadiu as redes sociais e que vêm extrapolando o mundo virtual para o real.
O governo Lula tem buscado agir nessas frentes. Balanço publicado no final do ano pelo Ministério das Mulheres aponta para a intensificação das medidas desde 2023.
Entre os destaques do ano passado, a pasta elencou campanhas de conscientização pelo país, o lançamento do Painel de Dados do Ligue 180 (plataforma interativa que reúne e organiza informações sobre os atendimentos), a inauguração de novos equipamentos do Programa Mulher Viver sem Violência, entre outras.
“Com as entregas e a retomada dos investimentos, desde 2023 já foram inaugurados 18 novos equipamentos no âmbito do Programa Mulher Viver sem Violência e do Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios, sendo quatro Casas da Mulher Brasileira e 14 Centros de Referência”, informa o ministério.
Além disso, destacam-se novas leis sancionadas pelo presidente da República e que foram encampadas pelo governo. Entre elas estão a que aumenta a pena para violência psicológica com uso de IA; a que prevê monitoramento eletrônico do agressor durante medida protetiva; a que proíbe a redução do prazo de prescrição em crimes de violência sexual e a que agrava pena de crimes contra a dignidade sexual e prevê medidas protetivas e monitoramento.
Para 2026, a pasta diz que está prevista a inauguração de 12 novos equipamentos de prevenção e enfrentamento à violência contra mulheres, sendo seis Casas da Mulher Brasileira e seis Centros de Referência da Mulher Brasileira.
Como forma de chamar atenção para o tema, o presidente Lula sancionou, no começo de janeiro, a lei que cria o Dia Nacional de Luto e Memória às Mulheres Vítimas de Feminicídio, — data em que Eloá Cristina Pimentel foi vítima de feminicídio no ano de 2008, na cidade de Santo André (SP).
Após vários casos brutais ocorridos no final do ano passado — entre os quais o de Tainá Santos, que morreu dias após ser atropelada e arrastada na Marginal Tietê, em São Paulo, por um carro conduzido por um ex-namorado — o presidente Lula cobrou medidas mais enérgicas dos ministérios e maior dedicação da sociedade, especialmente dos homens, ao tema.
Neste ano, voltou a a abordar a questão. Durante o 14º Encontro do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), na sexta (23), Lula salientou: “A luta contra a violência à mulher, a luta contra o feminicídio, não é uma coisa das mulheres, é uma coisa dos homens. Nós temos que criar vergonha e defender as nossas companheiras. A gente tem que dizer: ‘homem que bate em mulher não é homem’. Somos nós, homens, que temos que comprar essa briga”.
Por Priscila Lobregatte/ Portal Vermelho
