Em menos de uma semana, Paulo Figueiredo levou a violência misógina do bolsonarismo a um novo patamar ao atacar Miriam Leitão
Por Natália Padalko
Na família Figueiredo, o vocabulário parece ter parado no mesmo campo semântico. Na década de 1970, João Baptista Figueiredo entrou para o folclore político ao afirmar que “o povo gaúcho é gigolô de vaca”. Décadas depois, o neto, o blogueiro bolsonarista Paulo Figueiredo, parece disposto a reivindicar o cargo para si: em seu programa no YouTube, confessou preferir que as próprias filhas o apresentem na escola como “gigolô” a jornalista. Às mulheres, porém, reservou outro papel. Chamou jornalistas de “prostitutas do Lula” e, ao atacar Miriam Leitão, recorre a um dos expedientes mais degradantes do bolsonarismo: transformar o estupro em instrumento de humilhação política.
Gigolô ou não, o fato é que Paulo Figueiredo segue pastoreando o rebanho bolsonarista por meio de suas lives. E, desta vez, escolheu como alvo justamente uma mulher que, aos 19 anos e grávida de um mês, foi despida, ameaçada de estupro e torturada pela ditadura militar, cujo último presidente foi seu avô, João Baptista Figueiredo.
Uma semana, dois episódios
As declarações foram feitas durante uma transmissão ao vivo em que Paulo Figueiredo comentou a cobertura política da imprensa. O episódio ocorreu poucos dias depois de classificar como “genial” a declaração em que Jair Bolsonaro afirmou que a então deputada Maria do Rosário (PT-RS) “não merecia ser estuprada”, frase pela qual o ex-presidente foi posteriormente condenado na esfera cível.
Na live da semana passada, Figueiredo afirmou que Bolsonaro “falava o que todo mundo estava pensando”, defendeu que o episódio com Maria do Rosário integrasse uma coletânea dos “melhores momentos” do ex-presidente e também ironizou as ameaças de estupro sofridas pela deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ). Menos de uma semana depois, deixou de exaltar esse tipo de ataque para reproduzi-lo.
A escolha de Miriam Leitão
A escolha de Miriam Leitão confere ao episódio uma dimensão ainda mais grave. A jornalista foi presa pela ditadura militar em dezembro de 1972. Grávida de um mês, foi submetida a um falso fuzilamento, ameaçada de estupro e mantida nua em uma sala onde militares colocaram uma jiboia como forma de tortura psicológica.
Mais de cinco décadas depois, a jornalista voltou a ser alvo de uma referência à violência sexual. Na mesma transmissão, Paulo Figueiredo também a ridicularizou ao insinuar que, caso deixasse a Globo, talvez precisasse recorrer à prostituição para sobreviver, mas acrescentou que teria dúvidas se “haveria demanda” para isso.
A violência como método
Na mesma transmissão, Paulo Figueiredo voltou sua artilharia contra a imprensa. Foi nesse contexto que disse preferir que as filhas o apresentassem como “gigolô” a jornalista e afirmou que “o jornalismo no Brasil é uma profissão pior do que a prostituição”, porque, segundo ele, prostitutas “vendem o corpo”, enquanto jornalistas “vendem a alma”.
Em seguida, dirigiu ataques a profissionais e veículos de comunicação. Sem apresentar provas, afirmou que comentaristas da GloboNews, da Folha de S.Paulo e do Poder360 receberiam dinheiro do governo Lula para defender a gestão federal e voltou a associar jornalistas à prostituição.
O ataque a Miriam Leitão marca uma escalada. Não porque seja o primeiro, mas porque leva a um novo grau de violência uma sequência de declarações que, em poucos dias, ultrapassou sucessivamente os próprios limites.
Repúdio da Abraji
As declarações também motivaram uma reação institucional. Em nota divulgada nesta quarta-feira (29), a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) repudiou as falas de Paulo Figueiredo, manifestou solidariedade a Miriam Leitão e às demais jornalistas atingidas e cobrou sua responsabilização nas instâncias cabíveis, além de providências das plataformas digitais diante do conteúdo divulgado.
A entidade afirmou que este “não é um episódio isolado” e advertiu para a tentativa de normalizar a violência de gênero como instrumento de intimidação contra a imprensa. Segundo a Abraji, ataques desse tipo contribuem para a descredibilização do trabalho jornalístico e alimentam formas ainda mais graves de violência contra mulheres que atuam na profissão.
Em nota, a entidade também declarou: “Repudiamos veementemente qualquer tentativa de normalizar a violência de gênero como instrumento de intimidação contra a imprensa.”
O custo político da misoginia
As declarações de Paulo Figueiredo surgem no momento em que Flávio Bolsonaro tenta reduzir, sem sucesso, sua rejeição entre o eleitorado feminino. O episódio evidencia a dificuldade do bolsonarismo em ampliar seu apoio entre as mulheres enquanto um de seus principais aliados insiste em recorrer à misoginia como arma política.
A contradição aparece também nas pesquisas. Levantamento Datafolha divulgado nesta semana mostra que Flávio Bolsonaro é o pré-candidato mais rejeitado pelas mulheres: 50% das eleitoras afirmam que não votariam nele de jeito nenhum no primeiro turno. Em um eventual segundo turno, Lula abre dez pontos de vantagem entre o eleitorado feminino.
