A eleição de Manuela Mirella para a presidência nacional da União Brasileira de Mulheres (UBM) marcou o início de um novo ciclo para uma das mais importantes organizações feministas do país. Ao encerrar, no último domingo (28), seu 12º Congresso Nacional, a entidade aprovou o documento político que orientará sua atuação até 2029, elegeu uma nova direção nacional e reafirmou o feminismo emancipacionista como referência para a organização das mulheres na luta por democracia, igualdade e transformação social.
Pela primeira vez em seus 38 anos de história, a UBM será presidida por uma mulher negra. A escolha de Manuela Mirella representa a renovação da direção da entidade sem romper com a trajetória construída nas últimas décadas. Ao lado da eleição da nova coordenação nacional, as delegadas aprovaram alterações estatutárias, uma plataforma de atuação para as eleições de 2026 e um conjunto de resoluções voltadas ao enfrentamento das desigualdades de gênero, do racismo, da violência contra as mulheres e do avanço da extrema direita.
Mais do que deliberar sobre sua organização interna, o congresso reafirmou uma concepção de feminismo comprometida com a transformação das estruturas que produzem as desigualdades. Em sintonia com a formulação historicamente defendida pelo PCdoB, os debates reforçaram que a emancipação das mulheres está diretamente ligada à defesa da democracia, da soberania nacional, dos direitos sociais e da participação política feminina.
Democracia, organização e projeto de país
Em sua intervenção na abertura do congresso, a presidenta nacional do PCdoB, Nádia Campeão, situou os desafios do movimento de mulheres diante da conjuntura nacional e internacional e defendeu a organização feminina como elemento estratégico para enfrentar o avanço da extrema direita e ampliar a participação das mulheres nas eleições de 2026.
Para Nádia, as conquistas das mulheres sempre estiveram associadas aos períodos de fortalecimento democrático e exigem organização permanente. “Nossa luta é anticapitalista, antimachista e antirracista.”
Ao defender o feminismo emancipacionista, a dirigente também reafirmou a necessidade de ampliar a representação feminina nas instituições políticas. “Precisamos eleger uma grande bancada feminista.”
Essa compreensão atravessou os debates realizados durante o congresso e orientou a construção das resoluções aprovadas pelas delegadas.
Renovação com continuidade
Ao assumir a presidência da UBM, Manuela Mirella afirmou que a nova direção dará continuidade ao trabalho desenvolvido pela entidade e convocou as mulheres a ampliarem sua organização diante dos desafios do próximo período político.
“Se o sistema e essa estrutura acharam que não haveria mulheres corajosas para enfrentar e apresentar um novo projeto de país, está aqui a União Brasileira de Mulheres para derrotar a extrema direita e apresentar um projeto de felicidade para o Brasil.”
A nova presidenta sucede Vanja Andrea, que esteve à frente da UBM durante dez anos e conduziu a entidade em momentos decisivos da história recente, como a pandemia de Covid-19, a reorganização do movimento feminista e a defesa da democracia diante dos ataques às instituições democráticas. Sua gestão também foi marcada pela ampliação da presença nacional da organização, pelo fortalecimento da formação política e pela construção de campanhas em defesa dos direitos das mulheres.

Construção coletiva das prioridades
As resoluções aprovadas pela plenária final foram construídas a partir dos oito grupos de trabalho realizados durante o congresso, que reuniram delegadas de todas as regiões do país para debater os desafios da entidade nos próximos anos.
Entre as prioridades aprovadas estão o fortalecimento da participação das mulheres na política institucional, a ampliação da presença da UBM nos territórios e nas redes sociais, a formação de novas lideranças, o enfrentamento à violência política de gênero e a preparação da entidade para o processo eleitoral de 2026.
Também foi defendida a criação de um fórum permanente de parlamentares da UBM, o fortalecimento de candidaturas comprometidas com a agenda feminista e estratégias para ampliar a comunicação da entidade e enfrentar a desinformação.
As delegadas aprovaram ainda moções em defesa da Política Nacional de Cuidados, da proteção às mulheres LBT+, da adesão dos estados ao Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios e da federalização de casos emblemáticos de violência contra mulheres, reafirmando o compromisso da entidade com a defesa dos direitos humanos e das políticas públicas voltadas à igualdade de gênero.
Memória que fortalece a luta
A construção do futuro da UBM também passou pelo reconhecimento de sua própria história. A atividade “Nossos Passos Vêm de Longe” reuniu mulheres que ajudaram a construir a entidade desde sua fundação, em 1988, reafirmando a memória como parte da identidade política do feminismo emancipacionista.
Foram homenageadas lideranças como Ana Rocha, Jandira Feghali, Jô Moraes, Jussara Cony, Leci Brandão, Liege Rocha, Lúcia Antony, Márcia Campos e Mary Castro, além das companheiras que receberam homenagens póstumas por sua contribuição à construção da organização.
A homenagem às pioneiras antecedeu outro momento de forte emoção: a despedida de Vanja Andrea da presidência nacional. Ao som de Maria, Maria, de Milton Nascimento, um vídeo relembrou sua trajetória à frente da entidade, marcada pela defesa da democracia, pela ampliação da organização nacional da UBM e pelo compromisso permanente com os direitos das mulheres.
Organização para os desafios do próximo período
A eleição da nova direção, a aprovação do documento político e das resoluções construídas coletivamente projetam uma entidade voltada para os desafios dos próximos anos, especialmente diante da disputa eleitoral de 2026 e da necessidade de fortalecer a presença das mulheres nos espaços de poder.
Em sintonia com a concepção de feminismo emancipacionista defendida pelo PCdoB, a UBM inicia esse novo ciclo reafirmando que a organização das mulheres permanece condição essencial para enfrentar as desigualdades, defender a democracia e construir um projeto de país comprometido com a soberania nacional, a justiça social e a emancipação humana.
Por Natália Padalko
