Pesquisa dos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva revela que a pauta mobiliza mulheres e homens e se consolida como tema estratégico da eleição de 2026
Por Natália Padalko
A corrida presidencial de 2026 ganhou mais um indicador sobre o peso político do eleitorado feminino. A pesquisa “20 anos da Lei Maria da Penha: percepção da sociedade brasileira”, divulgada nesta quarta-feira (29) pelos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva, mostra que propostas de enfrentamento à violência contra as mulheres influenciam a decisão de voto de 76% das mulheres. Entre os homens, esse percentual também é elevado e chega a 71%, indicando que o tema mobiliza amplamente a sociedade.
O levantamento reforça um cenário que já vinha sendo desenhado pelos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Com 83,8 milhões de eleitoras , o que representa 52,84% do eleitorado brasileiro, as mulheres formam o maior contingente de votantes do país e tendem a exercer influência decisiva sobre o resultado da disputa presidencial. Nesse contexto, políticas de prevenção e enfrentamento à violência deixam de ocupar um espaço periférico no debate público e passam a integrar o centro da agenda eleitoral.

De acordo com a pesquisa, o apoio a propostas voltadas ao enfrentamento da violência contra as mulheres representa cerca de 67,1 milhões de eleitoras que afirmam considerar esse tema relevante na escolha de seus representantes.
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Violência contra a mulher ganha centralidade na disputa
Os resultados ajudam a explicar por que a pauta das mulheres passou a ocupar posição estratégica nas campanhas. Nas últimas semanas, governo e oposição intensificaram movimentos para dialogar com o eleitorado feminino, mas partiram de caminhos distintos.
De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem reforçado a defesa de políticas públicas de enfrentamento ao feminicídio, ampliação da rede de proteção às mulheres, autonomia econômica e fortalecimento dos serviços especializados.
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Do outro, a tentativa de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de ampliar sua presença entre as eleitoras acabou sendo atravessada por sucessivos episódios envolvendo a pauta feminina. Depois de lançar o programa Brasil por Elas, apresentado como principal vitrine de sua agenda para mulheres, Flávio classificou a Lei Maria da Penha como “um pedaço de papel”, deslocando o debate para a defesa da principal legislação brasileira de enfrentamento à violência doméstica.
O episódio se somou a outras declarações recentes ( e absurdas) de aliados do bolsonarismo que provocaram forte repercussão entre organizações de mulheres e ajudaram a recolocar o tema no centro da sucessão presidencial.
O que as eleitoras esperam dos candidatos
Em entrevista para o UOL, Maíra Machado, diretora de Pesquisa do Instituto Locomotiva, afirmou que o levantamento mostra que existe uma expectativa concreta de que o tema faça parte da campanha eleitoral. Segundo ela, as eleições são um dos principais momentos de contato entre candidaturas e eleitorado, tornando natural que as mulheres esperem ouvir propostas sobre enfrentamento à violência.
Maíra observa ainda que o combate à violência costuma reunir amplo consenso social. Para a pesquisadora, ampliar os serviços de proteção previstos na Lei Maria da Penha e fortalecer a rede de atendimento representa um ganho para toda a sociedade.
Na mesma direção, a secretária nacional de Enfrentamento à Violência contra Mulheres, Estela Bezerra, defende que as eleitoras observem não apenas as promessas de campanha, mas também o histórico de atuação dos candidatos.
Segundo ela, o compromisso pode ser medido pelas políticas implementadas, pelas legislações aprovadas e pela importância que cada candidatura atribuiu às mulheres ao longo de sua trajetória pública. Estela também afirma que respostas baseadas exclusivamente no endurecimento das penas não são suficientes para enfrentar um problema que exige prevenção, proteção e mudança cultural.
Vinte anos depois, Lei mantém legitimidade entre as brasileiras
Se a pesquisa mostra que o enfrentamento à violência contra as mulheres pode influenciar a escolha de candidatos nas eleições de 2026, ela também revela que a Lei Maria da Penha segue amplamente reconhecida como um instrumento de proteção às mulheres.
Sete em cada dez brasileiras (71%) afirmam que a legislação tem impacto real na vida das mulheres. Além disso, 67% dizem que sua existência lhes deu mais confiança para exigir um tratamento melhor por parte dos homens, enquanto 54% afirmam sentir-se mais protegidas em seu dia a dia e 74% dizem que a lei ampliou a percepção sobre os riscos da violência contra a mulher.

Relatora da Lei Maria da Penha na Câmara dos Deputados, a deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ) tem defendido o fortalecimento da legislação e das políticas públicas de enfrentamento à violência de gênero. Nos últimos dias, a parlamentar voltou a associar os ataques promovidos por lideranças bolsonaristas à reação contra os avanços conquistados na proteção dos direitos das mulheres.
Pesquisa revela outros desafios
Além de apontar o peso eleitoral da pauta e a legitimidade da Lei Maria da Penha entre as brasileiras, o levantamento também identifica obstáculos que ajudam a explicar por que o enfrentamento à violência contra as mulheres permanece como uma demanda central da sociedade brasileira.
Entre eles, está o fato de que 54% das brasileiras afirmam ter sofrido algum tipo de violência praticada por parceiro ou ex-parceiro quando os diferentes tipos de agressão são descritos na pesquisa, percentual muito superior aos 34% que inicialmente se reconhecem como vítimas de violência.
As pesquisadoras defendem que ampliar a rede de atendimento, fortalecer os mecanismos de prevenção e consolidar políticas públicas permanentes continuará sendo um dos principais desafios do país nos próximos anos.
Em um cenário em que as mulheres representam a maioria do eleitorado brasileiro, a pesquisa indica que o enfrentamento à violência deixou de ser apenas uma pauta de direitos humanos. Também passou a integrar o conjunto de temas capazes de influenciar a decisão de voto e, consequentemente, os rumos da disputa presidencial de 2026.
