Fala colhida em estudo classifica direito como “suicidante pra qualquer civilização”; foco da machosfera ultradireitista é atacar posição majoritariamente à esquerda das mulheres
por Priscila Lobregatte
onquista estabelecida há décadas, o voto feminino passou a ser anacronicamente questionado a partir da nova onda da extrema direita. No Brasil, 87% de publicações sobre o tema, feitas em 18 comunidades abertas do Telegram entre dezembro de 2020 e julho de 2026, se posicionam explicitamente contra esse direito adquirido há quase um século no País.
A constatação consta da nota técnica “Ataques ao direito de voto das mulheres na machosfera brasileira”, divulgado nesta segunda-feira (3) pelo Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas (DesinfoPop) da Fundação Getúlio Vargas.
“São 126 publicações, um volume pequeno — e ainda bem. Mas impressiona a violência com que essas comunidades tratam o assunto: o voto das mulheres aparece como ‘uma das maiores desgraças da humanidade’, ‘um dos maiores erros da sociedade ocidental’, ‘suicidante pra qualquer civilização’”, explica Julie Ricard, pesquisadora do DesinfoPop/FGV e coordenadora do estudo.
O assunto não é novidade entre grupos machistas e misóginos, mas ganhou novo impulso no Brasil mais recentemente após o influenciador e parceiro de Eduardo e Flávio Bolsonaro (PL), Paulo Figueiredo, dizer que “mulher vota estatisticamente muito mal. Principalmente mulheres solteiras. Mulheres casadas, em geral, tendem a acompanhar o voto do marido. Mulheres solteiras, não”.
Paternalismo e hostilidade
Ao se debruçar sobre as falas da machosfera, os pesquisadores perceberam que houve maior concentração desse tipo de postagem a partir de 2024 e que, entre outras características, o assunto é tratado de maneira bastante determinista e enfática, conforme apontou Julie em sua fala.
Para justificar tal posicionamento, os defensores apelam para o que seriam características naturais das mulheres e se utilizam de posições sexistas ora paternalistas, ora hostis.
O primeiro caso (o paternalista), conforme o estudo, é “formalmente elogioso, ligado ao excesso de sentimento e de compaixão, em formulação análoga à da ‘empatia suicida’ que circula na extrema direita norte-americana”. Segundo este conceito, a compaixão e o acolhimento excessivos estariam destruindo os valores da civilização.
O outro tipo de posição, de caráter, hostil, é o de que as mulheres seriam “egocêntricas”, “hipergâmicas” ou mesmo “psicopatas”. “Os dois registros são incompatíveis entre si, mas conduzem à mesma conclusão”, diz a nota técnica. “A ideia de que existe uma ‘natureza da mulher’ é sempre perigosa, e aqui vemos como isso se traduz em sexismo paternalista e hostil”, alerta Julie.
Em ambos casos, acrescenta, “o objetivo é o mesmo: defender a ideia absurda e retrógrada de que mulheres não deveriam votar.”
Razões políticas
Ao mesmo tempo, o estudo salienta que a razão efetivamente mobilizada por trás desses argumentos é, em essência, política. Trata-se de uma forma da extrema direita levantar, pela polêmica, questões supostamente já comprovadas por teses pseudo-científicas — por mais anacrônicas e desumanas que possam ser —, a fim de sustentar a defesa de seu ideário contra as posições do campo progressista e de esquerda.
“Sustenta-se que mulheres votam à esquerda e que por isso não deveriam votar, ao ponto de afirmar que ‘é através do voto feminino que o comunismo próspera’ e que ‘na história a esquerda só vence mediante a voto feminino’”, diz o estudo.
No fim das contas, argumenta Julie, “é uma estratégia política, e ela é enunciada sem nenhum constrangimento: mulheres votam à esquerda, portanto não deveriam votar. Chega-se a afirmar que ‘é através do voto feminino que o comunismo próspera’. No fundo, a razão central não é a capacidade das mulheres de votar, é em quem elas votam”.
